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Tragédia em Brumadinho: O dilema de agricultor em abandonar casa centenária onde nasceu e terra que era seu sustento

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Helio e dezenas de outros agricultores de Brumadinho perderam suas plantações (BBC NEWS BRASIL)

Tragédia em Brumadinho: O dilema de agricultor em abandonar casa centenária onde nasceu e terra que era seu sustento

Ali, Helio plantava mandioca, cará, bananas. Também produzia mel e própolis, que vendia no centro da cidade. Agora, ele perdeu seu sustento para a lama, situação enfrentada por dezenas de agricultores da região.

Circulando por sua casa com a BBC News Brasil, ele mostra o que havia no local de valor material e, principalmente, afetivo.

“Esta casa é centenária”, diz ele, e leva a reportagem até uma porta de madeira com uma maçaneta de ferro que tem as iniciais LG, de Leopoldo Gomes, o engenheiro que vivia ali antes da família de Helio. Diante dela, à beira da lama, há uma jabuticabeira tão antiga quanto.

“Aqui, minha mãe ganhou seus 11 filhos”, diz ele, o mais novo dos irmãos. Hoje, quatro estão vivos.

A história de sua família se mistura à do bairro, onde há ruas com os nomes de seus parentes. Seu avô comprou terras ali no início do século 20, quando a Estrada de Ferro Central do Brasil, que ligava Rio, São Paulo e Minas, chegou à região. A estação de Brumadinho foi aberta em 1917.

“A gente brincava de descer morro de carrinho, tudo a gente mesmo que construía”, conta Helio. “Meu pai tirava leite da vaca aqui e, às 6h, tinha que estar em Brumadinho para o trem levar tudo para Belo Horizonte. Estamos com o umbigo enterrado aqui. Sentimos muito ao ver o que era antes e o que veio depois.”

Um quintal de plantações – e memórias

Casa centenária de Helio foi parcialmente afetada pelo desmoronamento da barragem
Casa centenária de Helio foi parcialmente afetada pelo desmoronamento da barragem (BBC NEWS BRASIL)

Também há ali o que restou de uma casinha, onde a lama chega à metade da altura da parede. Era onde centrifugava o mel que produzia. “Tinha aqui uns 30 baldes de mel, vários vidros de própolis, embalagens. Tinha coisas de que nem lembro mais.”

Quem ensinou a ele e aos irmãos a técnica de apicultura foi a mãe, que a aprendeu na escola. Helio é aposentado, ganha pouco mais de um salário mínimo e tinha na apicultura um complemento de sua renda.

O quintal já teve várias funções para a família. Era onde seu pai curtia couro, e Helio e um irmão chegaram a ter um alambique. Desde criança, ajudava os pais com o trabalho nas plantações. “A gente sempre se alimentou do que plantava no terreno”, diz ele.

A tarde de pânico e a relação com a Vale

Até o rompimento da barragem, Helio não havia tido problemas com a Vale. “Eu era doido para ver como era lá dentro da mina. De um ponto alto, dava para ver a barragem. Era verdinha por cima. A princípio, não parecia que ia se desfazer”, diz ele.

Há menos de um ano, conta Helio, a empresa instalou sirenes no bairro, “mas não chegaram a explicar para a população para que serviria esse sistema de alarme”. No dia em que a barragem se desfez, as sirenes não soaram.

Quando ocorreu o rompimento, às 12h28, Helio estava em casa. Dali a mais ou menos 20 minutos a lama chegaria ao bairro.

Helio plantava mandioca, banana e cará, além de produzir mel, que vendia no centro de Brumadinho
Helio plantava mandioca, banana e cará, além de produzir mel, que vendia no centro de Brumadinho (BBC NEWS BRASIL)

Teve tempo de pegar documentos e a chave do carro. Do portão, já ouviu o barulho da avalanche, quebrando árvores pelo caminho.

Ao chegar num ponto mais alto da estrada, viu a lama levando carros, geladeiras, antenas parabólicas, restos de construções.

Um futuro incerto

Helio ainda não sabe onde vai morar, mas diz querer ficar no bairro. Autoridades disseram a ele que pagariam um aluguel na região. Foi instruído a tomar vacina de hepatite para evitar a contaminação pela lama.

A Vale o informou de que poderia voltar a morar naquela casa um dia, se quisesse, mas, para Helio, seria uma lembrança diária do que aconteceu.

“Quando abrir a janela da cozinha (que dá para onde ficava o Córrego do Feijão e onde está a lama hoje), vou ficar imaginando quem são as pessoas aí debaixo. Não quero isso, não. Mas acho que a gente tem que continuar a vida. A gente lamenta muito, mas a vida segue.”

Até a publicação desta reportagem, Helio não sabia o valor da indenização que receberia.

Procurada para comentar a situação dos agricultores da região, a Vale disse que faria uma doação no valor de R$ 50 mil para aqueles que moravam nos lugares onde a empresa previa que a lama chegaria, caso a barragem se rompesse, e de R$ 15 mil para aqueles que desenvolviam atividades produtivas ou comerciais ali.

(Fonte: R7)

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